Mural de 420 m² conecta arte urbana, memória e resistência

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Um retrato monumental do Padre Ticão agora ocupa a empena do novo CEU de Ermelino Matarazzo, na Zona Leste de São Paulo. Com 420 m² de área pintada em apenas 12 dias, o mural assinado por Rafael Roque é mais do que uma homenagem: é um marco estético e poético para a cena de arte urbana da cidade.

A obra foi inspirada em um registro fotográfico de Fernando Moraes e traz Ticão segurando uma erva daninha, elemento central da pesquisa de Roque. A planta, que resiste e floresce em meio ao concreto, aparece como metáfora da vida periférica — pequena, imperfeita, mas de uma beleza surpreendente.

“É um símbolo de resistência e florescimento. Padre Ticão foi quem regava e adubava esse terreno social, permitindo que muitos pudessem existir em sua plenitude”, afirma o artista.

O mural se constrói no encontro de linguagens: tipografia refinada criada por Lukin, ilustrações chapadas e marcantes assinadas por Gom, e o retrato realista de Roque. Essa mistura de estilos do grafite, da pichação e da pintura de grande escala resulta em um diálogo visual potente, que coloca a obra em sintonia com a diversidade da arte urbana contemporânea.

“Achei importante aproveitar esse vento favorável que soprou e decidi incluir pessoas que estão na luta, que são próximas e que eu admiro para somar nesse projeto, dividir a visibilidade e confiar a eles um apoio que tanto me ajudaram nesse processo”, explica.

Essa mistura de estilos do grafite, da pichação e da pintura de grande escala resulta em um diálogo visual potente, que coloca a obra em sintonia com a diversidade da arte urbana contemporânea. Foram utilizados cerca de 100 litros de tinta para cobrir a empena de 20 x 21 metros, pintada com auxílio de balancim em meio a um curto prazo e ao frio intenso. 

Uma homenagem da comunidade
Embora o foco seja estético, o mural carrega também uma dimensão social inevitável: Padre Ticão (1953–2021) foi uma das figuras mais emblemáticas da Zona Leste, lembrado por sua atuação em movimentos de moradia, saúde, educação e pela coragem de quebrar tabus na política e na religião. Sua imagem agora permanece como ícone, conectando arte, memória e comunidade em um dos equipamentos culturais mais importantes da região.

Falecido em 2021, aos 68 anos, deixou uma trajetória marcada por mobilizações históricas em defesa da saúde, da educação e da moradia, como a construção do Hospital de Ermelino Matarazzo, de unidades básicas de saúde e da USP Leste.

Na Zona Leste, liderou ocupações de terrenos, fundou creches e centros de apoio ao idoso e se tornou uma das vozes mais ativas do movimento de moradia, chegando a mobilizar 20 mil pessoas em protestos. Sua atuação foi decisiva para programas de mutirão habitacional e para a conquista de políticas públicas na cidade.

Ticão também foi peça-chave para garantir universidades públicas na região, como a USP Leste e a Unifesp Itaquera. Nos últimos anos, passou a defender práticas de medicina tradicional e foi o primeiro sacerdote católico a falar publicamente sobre o uso medicinal da cannabis em cultos religiosos, além de iniciar o curso gratuito de Cannabis Medicinal junto à Unifesp.


Sobre o artista
Rafael Roque, 43 anos, é artista visual autodidata e muralista. Começou pintando telas e, ao longo do tempo, passou a realizar murais de grandes dimensões que unem arte e ativismo social, com foco na pauta da cannabis medicinal, tema que atravessa sua vivência pessoal e inspira sua produção.

A convivência com uma sobrinha com paralisia cerebral despertou seu interesse pelo uso terapêutico da planta, levando-o a transformar a arte em ferramenta de luta, sensibilização e justiça social. Seu trabalho busca ampliar o debate, ressignificar a estética da cannabis e aproximar o público de uma nova perspectiva sobre o cuidado.

Além de artista, Roque atua como arte-educador em uma ONG para crianças em situação de vulnerabilidade social, e colabora na produção de exposições e intervenções urbanas. Mais informações sobre Rafael Roque na página do artista no Instagram @rafaelroque_art.

Reportagem: Da redação. Foto: Divulgação.

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